segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Alicerces


  • Passo a citar as palavras escritas sobre um grande projecto solidário em que tive a honra de participar:

     " Livro Solidário em parceria com a Acreditar.

    O GAFA, vai apadrinhar a construção da casa da Acreditar, no Porto. A ideia é construir uma “casa longe de casa”, que dê apoio logístico e algum conforto emocional às crianças e respectivas famílias deslocadas, durante os períodos de tratamento ambulatório no Porto.

    Para isso, o GAFA realizou um livro onde obteve a participação de 42 fotógrafos do GAFA e 42 escritores, do qual resultaram 42 textos inspirados em 42 fotografias.

    Este evento é apenas virtual e serve para apresentação deste projecto e de como adquirir o livro.

    Para o adquirir basta seguirem o seguinte link

    http://almalusa.org/gafa.html

    Quem queira pode adquiri-lo, pode fazê-lo, usando o pagamento Paypal, com cartão de crédito ou por transferência bancária.

    Será entregue à Acreditar, a titulo de donativo para a construção da Casa da Acreditar do Porto, a totalidade do lucro da venda, 5€ por livro.

    Espero que tenham tanto prazer a desfolhar este livro, como nós o tivemos a realiza-lo.

    Contamos e acreditamos, com todos vós."


    www.projectogafa.com

 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Lisboa

"Cheira bem, cheira a Lisboa..."
Cheira à sardinha assada, às marchas populares e aos arraias!
Cheira ao manjerico, às bandas musicais e às conversas serias e banais!
O odor típico dos santos paira no ar, entranha-se nas nossas roupas, faz-nos acreditar!
Faz-nos sair à rua para rir, ver, beber, comer e brincar!
Os bairros estão em festa, as gentes de Lisboa (e dos arredores) saiem para ver a marcha passar!
Os encontros ocasionais e combinados são múltiplos!
Bebe-se um copo e mais outro, até o dia raiar!
Uns saboreiam a sardinha no pão, provam a bifana ou o caldo verde!
Outros, ganham a noite, tostão a tostão!
Ouvem-se gargalhadas, ritmos musicais, apregoam-se sonhos, sentem-se pisadelas e uns quantos encontrões!
E no campasso musical "lá vai Lisboa" no seu dia tradicional!
Cheira à festa, cheira à esperança! Cheira a alegria e muita dança!
"Cheira bem, cheira a Lisboa..."

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Mundos diferentes

«Como estão as coisas por aí?»
«Aqui deste lado está tudo muito confuso!»
«Confuso como?»
«As pessoas atropelam-se umas às outras, magoam-se. Tem medo de dar um passo em falso e se dão um passo fora do caminho definido, recuam de imediato. É como se um nevoeiro denso lhes toldasse a visão e um vento ensurdecedor lhes conduzisse à apatia. E por aí?»
«Por aqui andamos como o tempo. Calados nos dias cinzentos, frios nos dias chuvosos, alegres nos dias quentes e cabisbaixos perante as tempestades.»
«Vivemos em mundos diferentes, mas somos iguais, portanto. Já não corremos, já não esperamos. Conversamos, vivemos o dia a dia e ignoramos...»

sábado, 2 de junho de 2012

Estranhos amigos

São estes os meus melhores amigos: um cão rafeiro que encontrei há onze anos, abandonado à beira da estrada e uma bicicleta que recuperei e pu-la como nova. Também não sei quantos anos terá e por quantas mãos terá passado. Estava no lixo, partida, à espera de uma nova oportunidade!
....
Pedalo entre o trânsito parado à hora de ponta. Levo no cesto da bicicleta o Bobi, está coxo e velho como eu. A bicicleta, essa máquina de outros tempos, continua forte e pronta para corridas. Mas, as minhas pernas estão cansadas, a subida até ao cimo da rua é lenta. De pedalada em pedalada atingo uma vitória triunfante, consigo chegar primeiro que toda aquela gente, stressada, no pára-arranca, ao final de um dia extenuante.
A casa está vazia, por limpar, porque a idade é muita e a vontade é pouca. Ligo o rádio para ouvir as notícias. A televisão? Essa está desligada desde a história do TDT. Não percebo nada disso, nem quero perceber. Vivi muitos anos sem televisão e posso viver outros quantos sem ela.
Peguei numa sandes mista que comprei pelo caminho. Dividi-a em duas, uma metade para mim, outra para o Bobi. O cão aproximou-se a coxear, abanou a cauda como mostra de contentamento e lambeu-me a mão, feliz. Senti cócegas e sorri para o velho Bobi.
Encontrei há uns tempos atrás uma mesa de matraquilhos. Não esperava convidar ninguém para uma festa (também não tinha quem convidar), nem estrear a mesa nesse dia. Pobrezinha, talvez nunca chegasse a ser útil, mas estava velha, suja e partida, e eu decidi recuperá-la.
De barriga cheia e com entusiasmo, dediquei-me a tal tarefa.
....
Há muito tempo que a solidão já não faz parte dos meus sentidos… Tenho com que me entreter. E sobretudo, tenho com quem partilhar a comida.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Um minuto...

Instante rápido que passa sem darmos conta. Momento imediato que marca a nossa cronologia de vida e que poucas vezes retemos na nossa memória.
Mas, quando somos invadidos pela ansiedade da espera, pela busca da notícia ou pelo medo súbito da perda, sentimos esses sessenta segundos como uma fração intemporal, demasiado longa e excessivamente meticulosa (capaz de ficar retida para sempre na nossa memória).

terça-feira, 13 de março de 2012

Estátua

Pinto a cara de branco como se de um quadro se tratasse. Maquilho-me ao pormenor por forma a reencarnar a minha personagem. Sorrio olhando-me ao espelho e exclamo: - Que olhos perfeitos! De oriental não passo!
Hoje sou gueixa, ontem fui múmia! Há três dias fui rei, amanhã serei palhaço.
Depois de amanhã o que serei? Não sei...
E é assim que todos os dias me transformo no que não sou!
Ora ponho um sorriso alegre, ora um olhar triste! Ora fico irritado, ora cabisbaixo!
Tantas expressões, dezenas de sentimentos, diversos estados que reconheço nos outros mas que não são verdadeiramente meus. Sou um ser que interpreta milhares de eus.
***
Parado na rua Augusta, agora sou uma estátua. Protejo-me do sol com uma sombrinha vermelha. O vestido diferente e colorido desperta a atenção de alguns trauseuntes. Aguardo uma moeda no cesto de vime ainda vazio.
Algumas pessoas olham-me com curiosidade, outros apressados, de fatos caros, bem cortados e pastas de couro na mão, tropeçam em mim com vista e olham-me com desdém.
De súbito, uma rapariga tagarela destaca-se de um grupo de amigos, sorri-me e atira uma moeda para o cesto - a estátua moveu-se por segundos num gesto premeditado - fechei a sombrinha, fiz-lhe uma vénia e voltei a abrir a sombrinha.
O grupo de amigos aproximou-se. Olhares de admiração e sorrisos espontâneos cruzaram-se na rua. Choveram moedas e multiplicaram-se os gestos da estátua movediça.
As crianças sorriam. Os turistas fotografam-me. Os fatos caros, bem cortados e apressados param por segundos.
***
Limpo a cara. Sento-me numa cadeira junto a mesa de jantar vazia e conto as moedas do cesto. Sinto a barriga a roncar, mas ignoro-a, sorrio e exclamo: - Vou comprar um traje novo! Depois de amanhã já sei o que serei!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Procura insaciável

Procuramos. Passamos a vida a procurar por algo. Procuramos uma diversão, procuramos um amigo, procuramos trabalho, procuramos um amor, procuramos sucesso, procuramos dinheiro, procuramos sexo...
A procura é o estado permanente do ser humano. A insaciável procura faz-nos esquecer o que já temos. O pouco que temos e que vemos como nosso deixamos para segundo plano, porque primeiro está a constante procura.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O homem que recuperou a fé

A medo Pedro entrou na Igreja. Há anos que deixara aquela porta fechar-se para si. Há anos que perdera a fé. Pedro inalou o cheiro das flores, do incenso e da cera queimada e como se de um gesto rotineiro se tratasse, benzeu-se.
Casara-se ali. Casara-se num dia solarengo de Agosto. Reunira a família e os amigos. A Igreja estava cheia, as crianças brincavam, davam gargalhadas, as mulheres observavam os vestidos alheios, os homens conversavam. De repente, o murmúrio crescente fora quebrado pela valsa nupcial e Débora entrou na igreja. A troca das alianças, as palavras ditas, as promessas e o beijo selavam uma relação e abriam caminho a uma nova vida. E assim foram abençoados.
Pedro escutou o silêncio frio e tranquilizador da Igreja. Observou os detalhes, a nave central, o altar, as colunas, o órgão de tubos. Observou a beleza e o requinte interior face à sua pobreza e estado de espírito. Observou as pessoas, sentadas, esperavam pela missa da tarde. Acreditavam. Eram guiadas pelo dito Deus.
Pedro também fora uma ovelha do Seu rebanho. Mas de um momento para o outro o dito Deus desapareceu da sua vida. E foi numa tarde de Agosto, também solarenga, que alguém o avisara que a mulher fora atropelada. Débora tinha ido almoçar com uma amiga no centro da cidade movimentada. Ao atravessar a estrada sem olhar, o sinal verde caíra, mas um carro desvairado ignorara a sinalização e embatera nela. Débora estava grávida de quatro meses. O seu corpo lutara pela vida, mas não resistira e a criança também não.
Que Deus é este que nos tira quem amamos sem aviso prévio? Que Igreja é esta que nos impõe mandamentos e não nos salva dos infortúnios? Pedro sentiu os remorsos entranharem-se pelo seu corpo. A bênção do casamento não lhe servira de nada. Deus ofereceu-lhe a felicidade para depressa a tirar.
Pedro sentou-se. Olhou Cristo na Cruz, procurou Deus nas paredes ornamentadas, nos frescos detalhados e como se de repente a fé reprimida ressuscitasse dentro dele, pediu-Lhe para partir. Pediu-lhe para ir ter com Débora!